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O profissional da sustentabilidade – esta categoria existe?

Publicado em 23/5/2011


Estou acompanhando a bem intencionada movimentação para organizar os profissionais da sustentabilidade. Mas como o inferno está cheio de boas intenções, vale à pena prestar atenção não só às intenções, e contemplar também as ações e os impactos provocados.

Em primeiro lugar, é importante não estabelecer uma categoria profissional estreita e estrita.. Mais um especialista entre tantos outros, disputando uma vaga no mercado de trabalho. Isso inclui alguns, mas exclui muitos.

Este profissional tem que aprender a ser sistêmico e biodegradável. Ou seja, sua atuação tem que se diluir, colaborando para converter a sustentabilidade em um jeito de ser de muitos, e não uma forma de agir de alguns poucos especialistas. Que surjam médicos, educadores, engenheiros, advogados, administradores, artistas, e quem mais vier – todos plugados em uma inteligência sustentável. Uma forma de ser, pensar e agir, independente da área de atuação profissional.

Nas tradições orientais, há uma metáfora que se aplica bem a este caso. É a história dos 4 vasos. O primeiro está emborcado, ou seja, nada consegue penetrá-lo. O segundo está rachado, enganando quem imagina que conseguiu preenchê-lo – rapidamente o conteúdo escorre e vai embora. O outro é o pote envenenado: tudo o que entra ali, se transforma no que já está. O último está vazio, única situação em que é possível acrescentar alguma coisa.

É preciso cuidar para não gerar potes emborcados – situações em que o discurso sustentável produz surdos, pessoas que, diante da inadequação das mensagens, não suportam nem ouvir falar em sustentabilidade. É preciso ter a humildade de falar a língua do interlocutor, exercitar a habilidade de se colocar no lugar do outro, compreender a ele e ao mundo observado a partir do seu ponto de vista. São providências para desvirar potes emborcados. Às vezes funciona.

Também é preciso cuidar da infinita capacidade de só enxergar o que interessa, lidando com potes rachados como se fossem sólidos e firmes. Pode ocorrer um entusiasmo passageiro, uma conveniência eventual, e quando menos se espera tudo fica para trás, como se nada tivesse acontecido, sem compromissos nem remorsos sustentáveis. Típico caso de pote rachado: simpatissíssimos, mas sem nenhum compromisso com coerência e continuidade.

Perigosa é a situação frente a um pote envenenado. Todo o esforço de transformação pode ser distorcido ou enquadrado nos velhos modelos, repetindo formatos desgastados travestidos de novidade, contaminados por antigos condicionamentos, temores, interesses e formas de ver a vida. É mais comum do que se imagina. Potes envenenados alimentam ilusões bem concebidas, onde se acredita que algo mudou, sem se dar conta de ter sido aprisionado pela armadilha da mesmice.

Profissionais de sustentabilidade têm que ter a habilidade de esvaziar potes e preenchê-los com algo adequado, criativo, transformador e benéfico – em qualquer área de atividade. Criar uma categoria profissional separada das demais pode retardar as necessárias e urgentes transformações. Pode também produzir um imenso pote envenenado, onde estarão os que se percebem como eleitos, seres diferenciados que, repetindo a separatividade e a exclusão, imaginam dar conta de resolver nossas urgências.

Não há problemas em se auto-definir como um profissional da sustentabilidade. Que sejam muitos, contanto que se incluam múltiplas aspirações e áreas de atuação.

 

Publicado no Blog da Migliori no Mercado Ético em 23/05/2011



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COMENTÁRIOS

Maria Antonia Marcon dos Santos (toninha-sp@hotmail.com)

Gostei muito desse artigo, sempre pensei dessa forma, mais acabei me tornando um analista de responsabilidade social.





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